O mercado livre de energia brasileiro vive uma inflexão importante, com novo patamar de preços e aumento da volatilidade. Esse movimento reflete uma mudança estrutural na matriz de geração e na forma como o sistema é modelado. A combinação entre maior participação de fontes renováveis não controláveis, restrições operativas de usinas hidrelétricas, necessidade de maior granularidade temporal nas simulações e escolhas mais conservadoras na operação tem exposto limitações importantes dos modelos atuais.

Essas limitações se manifestam, sobretudo, na baixa aderência entre o preço calculado para o dia seguinte e a operação em tempo real. Simplificações na representação do sistema de transmissão e desvios nas projeções da carga e da geração renovável, somados a uma valoração da água pouco precisa, resultam em uma política operativa que não captura adequadamente a dinâmica do sistema. O efeito direto é a obtenção de sinais de preço imprecisos e mais voláteis.

Nesse contexto, os parâmetros para representação da aversão ao risco do sistema implementados a partir de 2025 atuam como um amplificador, e não como a causa raiz. O ajuste destes parâmetros para produzir decisões mais prudentes eleva o custo marginal de operação, aumentando a frequência de PLDs (preços de referência no mercado de curto prazo) elevados, fazendo com que os contratos passem a incorporar prêmios de risco mais altos.

As discussões regulatórias recentes  caminham na direção de reduzir o descolamento entre os preços calculados pelos modelos computacionais e a operação real do sistema. A proposta é evoluir do modelo atual, predominantemente baseado em simulações ex-ante, para uma abordagem mais aderente à realidade, combinando maior granularidade na formação de preços com mecanismos de ajuste ex-post que incorporem as condições efetivamente observadas. Esse movimento busca tornar os sinais de preço mais consistentes do ponto de vista econômico, o que pode implicar em maior volatilidade do PLD.

Diante disso, a volatilidade elevada tende menos a ser um desvio e mais uma característica inerente ao sistema. À medida que os preços passam a refletir com mais fidelidade as condições operativas, como restrições e variabilidade renovável, é natural observar maior dispersão e sensibilidade a choques.

Isso reforça a necessidade de evolução no próprio mercado livre. Em um ambiente mais volátil, a simples contratação de energia em base “flat” se mostra pouco eficiente. Ganha relevância a estruturação de portfólios mais sofisticados, com diversificação de fontes, perfis de geração complementares e instrumentos de proteção mais dinâmicos.

Assim, a ideia de “energia contextualizada” se torna central, abrangendo, além do volume contratado, sua distribuição no tempo e no espaço.

O aumento de preços e da volatilidade não é um desvio, mas o reflexo de um sistema em transformação. O desafio está em evoluir os modelos e instrumentos de mercado para que esses sinais, ainda que mais instáveis, sejam também mais úteis e economicamente eficientes.

Fonte: Exame.